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  • Bonito - Redundâncias, quatro fusos e dez mil dias
    Uma jóia encravada na Serra da Bodoquena, Mato Grosso do Sul
     

    09 a 13 de outubro de 1998

    Sexta , dia 09

    Saímos às oito da noite da estação Vergueiro de metrô, com destino a Bonito. Éramos em dezessete pessoas, mais a guia da Pisa Trekking, a Anna.

    Começáva-mos uma viagem de aproximadamente quinze horas, em ônibus-leito, todos ansiosos para conhecer a tão falada cidade de Bonito, no Mato Grosso do Sul.

     

    Sábado, dia 10

    Por volta de quatro horas da manhã, a primeira mudança de fuso horário. Mato Grosso do Sul tem um fuso de uma hora a menos que em São Paulo. Era a primeira mudança de horário em cinco dias. Era também o dia do meu aniversário de Dez Mil Dias. Legal, né? Pelo menos, não tem todo ano...

    Chegamos na cidade de Jardim, para o primeiro passeio, às onze horas da manhã, na fazenda Olho D'Água. À primeira vista, nada indicava cachoeiras ou rios ou qualquer coisa aquática, a não ser as fotos que estavam expostas na sede da fazenda. Vestimos nossas roupas de neoprene e entramos no ônibus com destino ao Rio da Prata.

    Chegamos num deck e finalmente tivemos a primeira visão do que é Bonito. É realmente redundante! Descendo por uma escada, a cerca de dez metros abaixo de nós, o Rio da Prata escorria sem muita pressa, com sua água azul e cristalina e seus inúmeros peixes: eram dourados, pacus, piraputingas, piaus-de-três-pintas, curimbatás, enfim, uma festa!

    Ficamos cerca de meia hora nos deliciando nesta amostra de paraíso e iniciamos a trilha que nos levava até a nascente do Olho D'água, um afluente do Prata.

    Durante quarenta minutos, andamos por uma trilha em meio à mata, vendo aqui e ali uma paca, alguns lagartos, umas aves e enfim, um bando de queixadas que pediram pedágio de milho para permitir a nossa passagem. Esses queixadas, os flanelinhas do mato, foram mal-acostumados a ganharem milho para se aproximar dos turistas. O problema é que quando não ganham, cercam os turistas e podem ser muito perigosos. Saímos rapidinho deles, sem deixar de tirar algumas fotos, e rumamos para a nascente.

    Ao chegar na mesma, deparamos com uma lagoa de cerca de cinquenta metros de raio, com a água muito mais clara que no deck. Impacientes, ao primeiro de sinal de nossa guia local, a Nara, e de nosso guia da Pisa, o Maurício, pulamos na água!

    Instruções dadas (evitem pisar no fundo! evitem encostar em alguma coisa! não fiquem mostrando ao vizinho os peixes! evitem vizinhos, sigam em fila indiana!...) começamos o passeio...

    A visibilidade é impressionante! Peixes sem conta e imensos rodeavam-nos, víamos peixes a quarenta metros de distância! É uma pena que a câmera submarina descartável não consiga acompanhar o nosso olho...

    Demos a volta na lagoa e iniciamos a descida do rio. Em cerca de duas horas e meia, variávamos de profundidades de seis metros até meio metro ou menos! Algumas vezes, desviáva-mos de troncos, outras de pedras, outras raspávamos o peito ou as pernas numa pedra de tão raso, mas seguía-mos em frente.

    Em determinados locais haviam nascentes no leito do rio, chamadas de ressurgências ou mais popularmente, olhos d'água. A maior tinha o apelido de vulcão e impressionava em seus dois ou três metros!

    Algumas corredeiras (deliciosamente adrenalizantes, diga-se de passagem...), alguns remansos (chatos de sair por causa da roupa de neoprene...) e muitas curvas depois chegamos à foz do Olho D'Água e entramos no Prata, onde era bem mais fundo e mais azul. Com a tarde já bem avançada, chegamos ao deck e rumamos para o, acredite se puder, almoço (por volta de cinco horas...).

    E que almoço! Comida muito gostosa a destes pantaneiros, viu? Um docinho (vários!!) de sobremesa e corremos ao Buraco das Araras para tentar ver a revoada de morcegos.

    Fato importante! Meu tênis foi de carona para Campinas, com outra excursão!!! Vou tentar reavê-lo mais tarde....

    No tal Buraco, de ... sei lá... digamos ... cinquenta metros de profundidade, a noite já caíra. Dava prá ver apenas o fundo, de uma vegetação aquática nojenta, muito barulho de sapos, rãs, pererecas e afins, nenhum morcego e , importante!, cada vez mais mosquitos! Saímos rapidinho dali...

    Chegamos em Bonito às oito da noite e depois de não pequena discussão (leve...) um grupo, que ia "fazer" o Abismo de Anhumas (uma caverna onde se entra por um buraco a setenta metros da água, desce-se de rapel e passa-se muito frio... próxima vez eu vou!), teria que fazer um treinamento de rapel e não foi com a gente para o rafting noturno.

    Ah, o rafting.... De grau um prá dois (facílimo, uma baba....) descia o Rio Formoso pelas remadas de Roni (acho que era este o nome do nosso barqueiro), numa cadência lenta, mas gostosa. Dava muito tempo prá gente papear, se conhecer e contar causos... No total, três cachoeiras, uma corredeira e muita risada. Uma lua quase minguante que só foi surgir onze e meia da noite e uma chegada tranquila à Ilha do Padre.

    Esta ilha, de propriedade de um padre que eu não lembro o nome, é um parque, cheio de cachoeiras e com local para camping. Tudo mundo dormindo e a gente bagunçando nas cachoeiras...

    Como estava sem roupa de neoprene, com frio, e sono (eram duas da manhã...), não entrei nas cachoeiras, mas deu prá se divertir com os gritos do Jorge (of the Jungle... creio eu...) ao primeiro baque da força das águas...

    Voltamos ao hotel, o Paraíso das Águas, e dormimos cerca de três horas.

    Meu aniversário de dez mil dias já era passado e estava em novo horário: uma hora à frente pois entrara o horário de verão...

     

    Domingo dia 11

    "Buenos dias! Buenos dias", vinha a Anna (nossa guia, aquela do primeiro parágrafo...) gritando e acordando todo mundo para não perder a hora. Acordei rapidinho, mas o Maurício e o Jorge, que dividiam o quarto comigo, custaram a acordar. Principalmente o Maurício que, ao "Buenos Dias" da Anna, respondeu com um entravesseirado "Tá...", virou pro outro lado e continuou seu sono...

    Levantamos, tomamos café (gostoso...) e rumamos à famosa Gruta do Lago Azul.

    Chegando lá, já com guia nova, a Helena, descobrimos que a gruta já tem alguns milhões de anos, e que em suas águas é proibido entrar ou mesmo tocar. A paisagem é impressionante: cento e oito metros abaixo da boca da caverna (de acordo com a Helena... eu achei menos...), encontra-se a tal lagoa. Ainda era cedo, e a uma neblina saía da boca da gruta, que parecia ter acordado àquela hora!

    Os degraus, desiguais, molhados e limbentos, sem exceção, conduziam-nos para perto das águas azuis. Muitas formações calcáreas, estalagmites, estalactites, electites (espeleotemas, em suma...) para todo lado criavam uma atmosfera de descoberta a cada passo. Ninguém vai a Paris sem conhecer a Torre Eiffel, ninguém vai a Sorocaba sem conhecer o Zoológico Quinzinho de Barros, e obviamente, ninguém vai a Bonito sem conhecer a Gruta do Lago Azul.

    Dez e meia, rumamos para a fazenda do Rio do Peixe, já sem o grupo de Anhumas (sic). No trajeto, demos uma paradinha da Gruta do Mimoso, um dos bons pontos de mergulho em caverna de Bonito. Tinha alguns caras lá no fundo e dava prá gente ver suas lanternas e só. Rapidinho, pro Rio do Peixe.

    Chegando na fazenda, fomos recebidos pelo proprietário, o seu Moacir. Uma figura como ele só! Contador de causos a dar com pau, dono de uma fazenda linda, que iremos falar já, já. Um paraíso, em suma.

    Esta fazenda foi comprada pelo seu Moacir em 1991 (deixa eu colocar o ano com quatro dígitos prá evitar o tal de bug do milênio. Nunca se sabe... nunca se sabe...) e o antigo proprietário nem imaginava que havia tantas cachoeiras e tantos recantos bonitos ali. Seu Moacir foi descobrindo as cachoeiras, as grutas e em 1995 (ou 1996, não sei ao certo), abriu sua fazenda à visitação.

    Nadamos em cachoeiras, pulamos de trampolins e carretilhas, vimos muitos bichos e já com uma fome do cão, fomos almoçar. E que senhor almoço! Comemos até não aguentar mais e tão logo o processo de digestão nos permitiu, saímos a explorar novas cachoeiras...

    O tempo estava virando e do sol da manhã nem sombra (perdoem-me o trocadilho...). Mas isto não era motivo para deixarmos as cachoeiras para outro dia. Chegamos a elas debaixo de um início de chuva e rumamos rapidinho para um poço onde podíamos pular de cerca de quatro metros de altura.

    A água, a esta altura, estava prá lá de gelada e quando entrei numa mini-gruta num canto do poço (a Toca da Helena...) comecei a sentir sintomas de hipotermia de tanto frio. Meu queixo e minhas pernas temiam tanto que apesar da beleza do local, só queria me ver fora da água. Rapidinho pulei, ou melhor, me espremi pela passagem da gruta e corri para o seco.

    A chuva voltara e meu segundo tênis virou passoca molhada! Só me restava o chinelo e um resfriado quase certo, mas e eu com isto? Queria era aproveitar a viagem...

    Chegamos de volta à sede da fazenda e a esposa do seu Moacir (como era o nome mesmo?) preparou uma bebida que chamou de Viagra Caipira (eu conhecia por Quentão de Crente...), uma mistura quente de mel, gengibre, agrião, chá e outros etceteras. Bateu rapidinho e o frio desapareceu como que por encanto.

    Até chegar a hora de ir embora, ficamos a escutar causos do seu Moacir: as balas vigilantes, o marrequinho que se entregou, o peixe que só a fotografia pesava cinquenta quilos, o boi que se chamava macaco, enfim, uma diversão legal prá espantar o frio. Acompanhada de bolinhos de fubá.

    À noite, eu já estava moído, de modo que dividi uma pizza como Jorge (a pizza mais demorada que já vi!) e tentei passar a primeira noite dormindo mais que cinco horas dos últimos cinco dias...

    Vale como protesto, reclamar da barulheira que os habitantes da região fazem a noite na rua principal de Bonito. Bem em frente ao hotel, era uma competição de estilos musicais a duzentos decibéis e aberrações como barracas em cima de pickups.

     

    Segunda dia 12

    Último dia >snif< e nosso rumo era o Aquário Natural. Uma fazenda de nome Baía Bonita possui tal preciosidade que, se rivaliza com o Rio da Prata em beleza, ganha de longe em infra estrutura.

    O Aquário em si é uma nascente com muita vegetação e, além dos dourados e curimbatás de praxe, tinha uns peixinhos vermelhos chamados Matogrosso e outros que deviam ser piranhas nanicas, que insistiam em confundir os pelos da minha perna com alimento sob encomenda...

    Muitos ohh!s, peixes e metros rio abaixo, terminava o passeio no aquário, sem antes descermos outra carretilha, esta um pouco mais radical e pularmos prá valer numa bóia com pula-pula no meio do rio. Diversão, como dizemos no interior de São Paulo, prá mais de metro!

    Ao voltar à sede da fazenda, uma piscina com hidromassagem e água morninha nos esperava até a hora do almoço. Entramos em fase de lezeira (algo além do estado letárgico) e só criamos coragem de sair dali quando o estômago nos expulsou.

    O almoço, para a grande maioria, estava delicioso, menos para a Denise, que achou que doce de leite combinava com arroz, feijão e frango e descobriu que não era bem assim... Desculpa Denise, eu não resisti e entreguei...

    Hora de ir embora, alguns tchaus, entramos no ônibus e de repente, pânico à bordo: cadê a Ivanilde? No ônibus não estava...

    Não é que a dita-cuja descobriu que ali pegava o celular e desembestou a gastar impulsos que nem viu o ônibus sair?... Sabem o que ela fez depois de constatar o fato? Tornou a usar o seu celular...

    Voltamos à fazenda e, já de posse de Ivanilde, fomos pegar o ônibus para voltar à Sampa. Num posto de gasolina, trocamos de ônibus, demos tchau prá Helena e pro Maurício, reencontramos com o Ivo, que tinha pegado carona com a gente e finalmente, rumo para casa, a dezesseis horas de distância.

    Um calor infernal durante a estrada de terra (não podiam ligar o ar-condicionado, diziam eles...), mais um fuso horário vencido, agora uma hora prá frente e já estávamos em território paulista.

    Terça dia 13

    Seis horas da manhã e já estávamos na estação Vergueiro de metrô, com o Gol verde-varejeira de meu pai me esperando para ir até Sorocaba. Sete e meia já estava em Sorô.

    E assim termina minha viagem para Bonito, um dos cinco locais do mundo que eu desejo visitar em minha vida (o próximo deve ser Machu Picchu, se Deus quiser...). Trato esta viagem também como uma volta à natureza, da qual fiquei afastado por anos (exceto por algumas pescarias...), por motivos de estudo, trabalho, etc. Espero eu que seja um reencontro de verdade...

    Tchau redundantemente Bonito e suas águas! Até a próxima.

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