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  • O Mercador de Sonhos
    Eduardo Valente, 06 de julho de 2000
    "Que caravelas bonitas, não ?"
    Eu levei um susto! Quem era este que invadia minha fantasia e compartilhava meus sonhos?

    As tais caravelas eram na verdade barquinhos de papel que tínhamos feito com uns restos de boletim da igreja e resolvemos soltar no rio Sorocaba. De cima da ponte, jogamos os barquinhos e os que caíram em posição vertical (quase todos), desciam o rio, enfrentando fortes e assustadoras correntezas. Para eles, é claro.

    O que me impressionava não era o fato de julgar aquelas dobraduras grandes barcos exploradores. Eu tinha experiência no assunto, afinal, tinha cinco anos e nessa idade os sonhos tendem a assumir uma parcela notável de realidade. O espanto maior era de que um adulto pudesse trazer sonhos para a realidade também. Este adulto chamava-se Mário, mas eu o tratava como "pai" (ou "papai" e "papaizinho", dependendo do que eu estivesse querendo...).

    Desde que nasci, ele se intromete na minha vida, com a pressuposição de que pais devem cuidar de seus filhos e orientá-los no melhor caminho, não os permitindo cometer os mesmos erros que tivera e conseguir mais do que tivera. Nos momentos de doença, lá estava ele a me socorrer. Nos momentos de tristeza, sabia (não sei como), a hora de aproximar-se e afastar-se.

    Não considero meu pai um amigo, por um motivo simples: amigos vêm e vão, pai é aquele, independente do que você sente por ele. Você pode dizer para um amigo: "você não é mais", mas, como dizer isto a um pai, mesmo diante da maior raiva que você esteja sentindo? Impossível.

    A posição de pai, entretanto, deve ser conquistada. Existem pais que conseguem pelo medo, do tipo, eu sou mais forte que você. Um dia os filhos crescem e a balança da força pende para o outro lado... Outros pais conseguem pela tradição, de que pai é pai, e pronto! Tudo bem, mas nem no inverno da Antártida algo pode ser tão frio assim. Há pais que conseguem pelo amor, e essa espécie não pode de modo algum ser desprezada. A propósito, o mandamento "Honra a teu pai e tua mãe...", se fosse mudado para "Ama teu pai e tua mãe...", seria ainda mais difícil de cumprir, não? O amor tem a honra como apenas um de seus ingredientes...

    Meu pai, confesso, gosta de ir um pouco adiante. Não contentando-se em amar a mim, a Vanessa, a Daniela e a Melissa, ainda quer se intrometer em nossos sonhos, de uma maneira às vezes nada sutil. Sua paixão, além de minha mãe, é a pescaria e tudo relacionado com barcos. O pegar o peixe é menos importante que o ir pegar o peixe. Adepto da filosofia "O pior naufrágio é não partir", curte as experiências num barco. Mesmo assim, torna seus nossos sonhos.

    Assim ele, que é médico, já quis ser publicitário, engenheiro de computação, fisioterapeuta, etc, etc, etc, de acordo com as profissões que escolhíamos. Já quis montar sua agência, andar na trilha inca, mergulhar em Noronha, vender produtos. Era como se comprasse nossos sonhos, negociando o seu valor e aceitando o preço. Também vendia os seus, já que pescaria é uma experiência deliciosa prá mim também. Entrou no escotismo não porque adorasse aquela vida, mas porque era um sonho bom de se tornar real para minha família. E tinha razão... Seus gibis antigos, da década de cinquenta, fazem companhia aos meus, de décadas mais recentes...

    Não o acho um sonhador, no sentido lendário da palavra. Acho-o um mercador. Um mercador de sonhos. Aquele que compra e vende sonhos, negociando seu valor e sua viabilidade. Oferece um serviço de assistência técnica também, muitas vezes sumariamente dispensado por nós. São nossos sonhos que tornam-se seus e sonhos seus que realizam-se em nós.

    Não lembro de vê-lo assistindo uma só partida de futebol. Aliás, tirando os filmes "A Noviça Rebelde" e "O Quarto Mago", não lembro de vê-lo assistindo qualquer coisa por inteiro. O Senhor do Zap de casa, manuseia com uma destreza engraçada o controle remoto, levando a platéia a um estado de total desespero pelas suas manobras radicais de no máximo cinco segundos em um canal. Minto! O de leilão de tapetes persas, por razões obscuras aos reles mortais, ganha alguns segundos a mais de lambuja...

    Mas de vez em quando pergunta quanto foi o jogo, ou comenta alguma matéria que passou na televisão, e diante de nossos olhares atônitos, curte seu momento de glória, enquanto ficamos a matutar em que hora ele viu a matéria.

    Enfim, como diz o ditado, pai é pai, o resto é outra coisa. Agradeço a Deus por ele, porque não queria outro não, mesmo que pudesse escolher. E escrevo isto, como agradecimento e reconhecimento, tendo-o vivo e forte. Não vejo com bons olhos o estilo mea culpa, que após os pais o terem deixado, confessa o quanto eles eram importantes, as coisas que eles tinham razão. Acho covardia e eu, que sou Valente de carteirinha, não poderia fazer isto...

    Um dia, espero eu, seja eu o pai, como o Jerê, marido da Vanessa, acaba de ser. Aí então, exercerei esta profissão maravilhosa que deve ser. Mercador de Sonhos. Obrigado, pai.

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