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  • Se esta rua fosse minha...
    Eduardo Valente, 24 de agosto de 2000
    Se esta rua, se esta rua fosse minha, eu não mandava ladrilhar, não.

    Eu começava era tirando o asfalto feio e colocando cascalho vindo de um rio de uma cidadezinha bem do interior... Colocava uma placa no início, com os dizeres: "É Proibido Ter Pressa!", para quem passasse de carro ali, apreciasse toda a beleza que se formava.

    E plantava árvores! Muitas! Milhares! As de fruta e as de sombra, grandes e pequenas, de todos os tipos... Daria nomes a elas, e cuidaria bem para que se sentissem em casa!

    Os passarinhos e bichinhos pequenos fariam ali sua morada, e tal seria a cantoria e algazarra, que ruas e ruas além as pessoas se constrangessem em ficar apressadas e aborrecidas e começassem a sorrir. Tamanha folia atrairia poetas, compositores, cantores, pintores e todo tipo de artista, que diante de tanta inspiração, fariam suas obras primas ali mesmo e exporiam entre pés de jacarandás e mangueiras, entre roseiras e jasmins.

    Quem tivesse fome, chegaria ali e poderia colher as frutas, mas não poderia levar, para o bichinho da ganância não ficar com idéias...

    Na minha rua teriam crianças! Crianças pequenas e já crescidas, algumas tentando trazer de volta o jeito de menino que numa rua qualquer se perdera. Todas as brincadeiras seriam de todos. E toca a brincar de pião, bolinha de gude, amarelinha, futebol com bola de meia, ioiô, cabra-cega, pula-carniça, esconde-esconde... Só não tinha briga e cara feia.

    A violência não teria a menor chance, porque com uma rua tão gostosa, não dá mesmo prá pensar em coisa ruim. Só aquele sorriso de orelha a orelha que a gente suspira prá de vez em quando ter...

    A única tecnologia que eu permitiria eram pouquíssimas câmeras de vídeo, para que as pessoas que morassem muito longe da minha rua e não tivessem como vir, vissem as imagens, ficassem menos tristes e voltassem a sonhar.

    Eu cobraria ingresso para entrar na minha rua: uma piada da boa, uma poesia bem declamada, uma gargalhada bem gostosa, uma canção de ninar e, se fosse dia de promoção, um suspiro de felicidade.

    Abriria franquias, de modo que no mundo inteiro, houvesse mais ruas iguais à minha, porque coisa boa de verdade a gente não consegue guardar só prá si.

    Nessa minha rua, o meu amor não ia passar. Ia chegar prá ficar e nunca mais ir embora. E nesse dia eu decretaria feriado na minha rua!

    Mas a rua não é minha... É de asfalto, sem artistas, sem crianças, com poucos passarinhos que só cantam antes da gente acordar... De noite dá medo de assalto, de dia dá medo também... Mas eu vou no meu sonho querido plantando uma sementinha aqui e ali... Quem sabe um dia elas germinam?

    Se você souber de uma rua como a minha, por favor, me informe! Que eu pago o ingresso rapidinho! Minha gargalhada está que nem se aguenta mais...

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